DIÁRIO — O SANGUE QUE O SISTEMA NÃO VÊ

 Enfim, desceu de novo.

Depois de apenas 18 dias, meu corpo decidiu me lembrar que eu sou refém do meu útero. Foi no dia 5 de julho que começou minha nova tortura. Hoje é 13 de julho — acredito, respiro, que tenha acabado. Foram 8 dias de guerra, e eu preciso contar como foi.

Começou como sempre: de madrugada. Eu acordei sentindo aquele peso queimando no fundo da barriga, uma pressão que me avisa — vem sangue aí, muito sangue. E veio. Desceu sem pedir licença, escorrendo, pingando, formando coágulos tão grandes que eu tenho vergonha de dizer, mas digo — porque é real, porque outras mulheres precisam saber.

Naquele primeiro dia eu já sabia: minha rotina seria ficar deitada. Porque se eu levanto, o sangue despenca como cachoeira. Cada ida ao banheiro é um rio. Cada passo é mais um absorvente cheio. Troquei mais de oito por dia, todos transbordando. Enchia sacolas, lotava lixeiras, gastava todas as calcinhas que eu tinha. O cheiro do sangue grudou em mim. O lençol, a toalha, o chão — tudo carrega um pedaço do que meu corpo tenta expulsar.

A dor? Essa é minha companheira fiel. Rasga minhas costas, aperta o baixo ventre, morde a virilha. Se não fosse o Postan, de 6 em 6 horas, eu não tinha forças pra abrir os olhos. Tomo engolindo o medo de tanto remédio sem acompanhamento, mas não tenho escolha: ou tomo ou não vivo.

A tontura veio logo junto. Cada absorvente lotado leva embora meu ferro, minha energia. Eu tento levantar pra cozinhar — a vista escurece. Já desmaiei, já vi tudo girar, já precisei segurar na pia pra não cair. E mesmo assim, o ginecologista do posto de saúde não existe. O sistema falhou pra mim, como falha pra tantas.

Enquanto isso, eu sou paciente, farmacêutica, enfermeira de mim mesma. Pesquiso o que tomar, compro o que posso pagar. O que era pra vir do médico, vem do bolso. E o medo mora comigo: medo de errar a dose, medo de parar no hospital por hemorragia, medo de morrer de tanto sangrar sozinha.

E no meio disso tudo? Eu sou mãe. Mesmo sangrando, eu ainda preciso ser.
Não importa se minha barriga dói tanto que mal consigo sentar — eu sento, porque meu filho precisa comer. Não importa se minhas pernas tremem de fraqueza — eu levanto, porque ele me chama. A dor não tira meu papel de mãe. O sangue não me dá folga pra descansar. Tem roupa pra lavar, tem lição de casa pra olhar, tem prato pra pôr na mesa. E eu, entre um coágulo e outro, sou mãe — sempre.

Hoje é 13 de julho. O fluxo quase parou — e eu respiro fundo, com medo de respirar aliviada demais. Porque sei que daqui uns dias, meu útero vai me lembrar de novo quem manda: a adenomiose, as varizes pélvicas, o abandono do SUS.

Enquanto isso, eu escrevo. Porque minha dor não é drama, não é frescura, não é exagero — é verdade. E enquanto eu sangrar, eu falo. Pra que quem vier depois de mim não precise sangrar em silêncio.

Se você sente isso também, eu te abraço. Você não tá sozinha.

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